Abstract
A candidíase vaginal (CV) continua sendo extremamente comum, uma vez que quase todas as mulheres experimentam esse desagradável quadro genital pelo menos uma vez em algum momen-to de suas vidas. A grande maioria das cepas isoladas da vagina correspondem a espécies da C. albicans, estimando-se que a proporção de infecções por cepas não-albicans venha aumentando progressivamente nos últimos anos. Clinicamente ambas são indistinguíveis, causando sintomatologia muito semelhante. Todavia, tem sido relatado que a C. albicans está mais associada com os sintomas do que as cepas não-albicans, as quais geralmente são mais resistentes às terapi-as habituais. Com o objetivo de avaliar a distribuição de espécies de leveduras isoladas da vagina e o perfil de susceptibilidade in vitro das mesmas aos antifúngicos habituais, Ferrazza et al. 1 publicaram em número recente desta revista os resultados de estudo com 227 mulheres em duas localidades no sul do Brasil. A freqüência de cultura positiva foi de aproximadamente 24%, confirmando ser a C. albicans a mais prevalente. Entretanto, encontraram uma considerável diferença na proporção de cepas não-albicans, sendo muito mais freqüentes em uma das cidades e sugerindo diferenças regi-onais quanto à espécie isolada. Além disso, encontraram uma maior tendência de resistência à nistatina, sendo que praticamente metade das cepas apresentaram susceptibilidade dose-depen-dente (intermediária) a este anti-fúngico. A sugestão desses autores é de que seja realizada a determinação da espécie através de cultura e anti-fungigrama no manejo clínico da CV. Acreditamos, no entanto, que isso seria inviável para nossa realidade e até mesmo desneces-sário na grande maioria das vezes, devendo ser reservado apenas para aqueles casos da atualmen-te denominada CV complicada. Cremos, sim, que o diagnóstico correto de uma CV seja de extrema importância, e para o qual alguns pontos devem ser ressaltados para a prática diária, particular-mente no sentido de se evitar o tratamento excessivo e equivocado dessa vulvovaginite. A C. albicans é freqüentemente o diagnóstico presuntivo para qualquer irritação vulvovaginal. A maioria das mulheres e dos próprios ginecologistas assume erroneamente que todo e qualquer pruri-do genital, especialmente quando acompanhado por um corrimento vaginal, seja causado invariavel-mente por uma candidíase. É preciso cuidado, pois esta idéia/crença não é verdadeira. Nossa experi-ência tem mostrado que pelo menos metade das mulheres que nos são encaminhadas com o rótulo de portadoras de CV recorrente (CVR), na verdade, têm seus sintomas devidos a outras causas que não a candidíase. Por isso, um diagnóstico correto é a maior garantia para o sucesso terapêutico. Podemos, na prática diária, distinguir três tipos de mulheres com candidíase no nosso con-sultório: 1) aquela em que a cândida foi um achado ocasional no exame rotineiro de Papanicolaou; 2) aquela que nos procura por estar sintomática, porém sem história de recorrências (CV não-complicada); e 3) aquela que se apresenta com história de episódios recorrentes de candidíase (CV complicada). No primeiro caso, não devemos nos esquecer que a cândida pode ser isolada em até 30% das mulheres saudáveis e completamente assintomáticas (as chamadas " portadoras sãs "). Assim, o simples achado da cândida num exame de rotina (por exemplo no Papanicolaou) não signi-fica necessariamente que a mulher tenha a doença candidíase vaginal clínica. Se não houver nenhum sintoma e o exame ginecológico for normal (sem corrimento ou inflamação, pH normal e teste de whiff negativo), a paciente não deve receber nenhum tratamento, a não ser uma boa orientação a respeito dos fatores predisponentes.
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Simões, J. A. (2005). Sobre o diagnóstico da candidíase vaginal. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, 27(5). https://doi.org/10.1590/s0100-72032005000500001
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