Abstract
Reflete-se sobre a redefinição dos significados da fronteira entre o Brasil e a Guiana para os povos indígenas que vivem nela a partir da implantação de iniciativas de integração econômica, sobretudo a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), que surgiu em 2000 de uma proposta apresentada em agosto daquele ano em Brasília, durante a reunião de presidentes da América do Sul, onde foi discutida a ideia de coordenar o planejamento para a construção de infraestrutura dos doze países do continente sul-americano. A fronteira Brasil-Guiana está inserida na IIRSA dentro do Eixo do Escudo Guianense, o que abarca os territórios tradicionais de vários povos indígenas, incluindo os Wapichana e os Makuxi, com quem realizamos pes- quisas desde 2001 (1), que tiveram suas terras divididas entre os dois países a partir da definição da fronteira internacional em 1904. Atualmente esses povos vivem nos dois lados da fronteira, transitam entre os dois países, muitas pessoas tendo documentos de ambos os países, identificando-se como brasileiros e guianenses conforme o país em que se encontram. A IIRSA visa a promover a integração sul-americana através da integração física, com a modernização da infraestrutura de transporte, energia e teleco- municações, mediante ações conjuntas. Nas comunidades indígenas, em ambos os lados dessa fronteira, há uma preocupação com as consequências da construção da ponte sobre o rio Tacutu, que liga as cidades fronteiriças de Bonfim no Brasil e Lethem no lado guianense da fronteira, e o planejado asfal- tamento da estrada que liga Lethem a Georgetown, visando o escoa- mento de produtos agrícolas como a soja, e minérios, pelo Atlântico, com a planejada ampliação do porto de Georgetown para receber embarcações de grande porte. Temem medidas governamentais que visam acelerar o crescimento econômico com aumento da produção de soja e mineração que ameaçam suas terras tradicionais. Com a internacionalização de políticas desenvolvimentistas, as perspectivas dos indígenas que vivem nessa fronteira revelam as contradições e as ambiguidades dos discursos governamentais dos respectivos Estados nacionais a respeito de nacionalidade e etnicidade, e a incógnita do futuro trazido pelo IIRSA.
Cite
CITATION STYLE
Baines, S. G. (2013). Povos indígenas na fronteira Brasil-Guiana e os megaprojetos de integração econômica. Ciência e Cultura, 65(1), 40–42. https://doi.org/10.21800/s0009-67252013000100016
Register to see more suggestions
Mendeley helps you to discover research relevant for your work.