Abstract
A arte é sobretudo um modo de conhecimento. Como tal, seu relacionamento com o mercado é sem-pre difícil, truncado. O interesse do artista é aprofundar um processo de investigação intelectual. O do mercado é um objeto vendável. A proposta de integrar a arte na Universidade envolve, é claro, proble-mas de difícil solução. Mas pelo menos coloca o trabalho de arte na perspectiva correta e coloca os artistas numa situação mais produtiva: próximos dos seus companheiros que lidam com o conheci-mento e sua divulgação. A formação do artista contemporâneo deve ser definida a partir de um conceito preciso de seu papel na sociedade. Tal conceituação implica discutir o espaço ocupado, hoje, pela arte no corpo da cultura e, mais, implica verificar a relação, decorrente, entre o processo formativo do artista e sua real possibi-lidade de atuação. O lugar da arte, como está preconizado pelo sistema, tem sido circuns-crito recentemente pelo mercado, mantido e apoiado pelas elites sociais e econômicas do país, em busca de um bem que lhes confira status; comporta-mento tradicional, aliás, apesar da novidade deste mercado. Arte tem sido referida, ainda, pelo velho paternalismo do poder público, que encampa e insti-tui prestígio ao subsidiar manifestações e valores artísticos. De outro lado, sua atuação tem sido delimitada à margem do corpo da cultura, pelas próprias "elites" culturais -extensão, freqüentemente rala, das mesmas elites socioe-conômicas -, que conferem à manifestação artística um hermetismo e uma forma de conhecimento quase diletante pela sua inoperância no processo social. Na verdade, tanto a "Semana de 22" quanto as Bienais que lhe sucede-ram 30 anos depois, referências importantes para a arte brasileira, representam o comportamento cultural de uma mesma elite oligárquica que, embora modi-ficando padrões e introduzindo novas referências artísticas àquele momento, detém, ainda hoje, a visão ociosa da cultura que confere à arte o seu requinte e status superior e que pretende nacionais os critérios de sua escolha 1 . Embora referida desta maneira, arte, enquanto forma de pensamento, não tem merecido o aval desta mesma cultura no sentido da sistematização de seu conhecimento. Ê importante ressaltar que o acesso à sua linguagem tem-se feito, conservadoramente, através de uma visão que pressupõe o inatingível (a estética), o transcendental, o revelador (a ética), e é a posição de oráculo que lhe serve de pedestal, quando não o "funcionalismo decorativo", versão "moder-na" do mesmo conceito. Além de contemporaneamente atrelada às já óbvias questões do mercado, arte está sendo usada pelas novas áreas de expressão -comunicação, tv, propaganda -como atividade subsidiária -exercício "criativo"
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Resende, J. (2005). Formação do artista no Brasil. ARS (São Paulo), 3(5), 22–29. https://doi.org/10.1590/s1678-53202005000100002
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