Abstract
F alar hoje de cultura no Brasil é falar necessariamente da "telenovela brasileira". 1 Quarenta e seis anos após a sua introdução, é possível afirmar que a telenovela conquistou reconhecimento público como produto esté-tico e cultural, convertendo-se em figura central da cultura e da identidade do País. Ela também pode ser considerada um dos fenômenos mais representativos da modernidade brasileira, por combinar o arcaico e o moderno, por fundir dispositivos narrativos anacrônicos e imaginários modernos e por ter a sua história fortemente marcada pela dialética nacionalidade-midiatização. Essa situação alcançada pela telenovela é responsável pelo caráter, senão único, pelo menos peculiar, de ser uma «narrativa nacional» que se tornou um «recurso comunicativo» que consegue comunicar representações culturais que atuam, ou ao menos tendem a atuar, para a inclusão social, a responsabilidade ambiental, o respeito à diferença, a construção da cidadania. A TeLeNoVeLA No ceNÁRIo socIAL e TeLeVIsIVo bRAsILeIRo A presença central da televisão 2 em um país situado na periferia do mundo ocidental poderia ser descrita como um paradoxo a mais em uma nação que ao longo de sua história foi representada reiteradamente como uma sociedade de contrastes acentuados, entre riqueza e pobreza, modernidade e arcaísmo, sul e norte, litoral e interior, campo e cidade. E, de fato, a televisão está im-plicada na reprodução de representações que perpetuam diversos matizes de desigualdade e discriminação. Entretanto, também é necessário reconhecer que ela possui uma penetração intensa na sociedade brasileira devido à sua peculiar capacidade de criar e de alimentar um «repertório comum», por meio do qual pessoas de classes sociais, gerações, sexo, raça e regiões diferentes se posicionam 1. A telenovela (ou novela) tal como a conhecemos hoje, enquanto formato da ficção televisiva, surgiu em 1963, podendo ser definida como uma narrativa ficcional de serialidade longa, exibida diariamente e que termina por volta de 200 capítulos, ou seja, é levada ao ar seis dias por semana e tem uma duração média de oito meses. Ao usarmos a expressão "telenovela brasileira" referimo-nos efetivamente ao padrão de teledramaturgia atingido e popularizado pela TV Globo, incorporando a importância que tiveram na consecução desse padrão tanto a experiência pioneira da TV Tupi (décadas 1964-1980) e a experiência inovadora da TV Manchete (1984-1998). 2. A televisão foi introduzida no Brasil em 1950 e, ao longo da história, o Estado influiu de diferentes maneiras nessa indústria. Detentor até hoje do poder de conceder e suspender concessões de TV, sua política sempre foi a de estimular o modelo comercial, não tendo havido, a rigor, até hoje, nenhuma experiência de televisão pública de massa no País. Além de se constituir em um dos maiores anunciantes dos meios de comunicação de massa, o Estado, particularmente a partir de 1964, durante o regime militar, tornou as telecomunicações um elemento estratégico de suas políticas de desenvolvimento, de integração e de segurança nacional. Além de aumentar o seu poder de ingerência na programação por meio de regulamentações, forte censura e políticas normativas, o governo militar investiu maciçamente na infraestrutura possibilitando a formação de redes nacionais (sistema microondas, satélites etc.). Atualmente são seis as redes nacionais de televisão aberta no país: TV Globo, SBT, TV Record, Rede TV!, TV Bandeirantes e TV Brasil. Todas são privadas, à exceção da última que é pública e foi recém-criada (dez.2007). telenovela como recurso comunicativo
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Lopes, M. I. V. de. (2011). Telenovela as a communicative resource. Matrizes, 3(1), 21. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v3i1p21-47
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