Abstract
O Instituto de Estudos Avançados da USP me convidou para falar sobre destruição ambiental na Amazônia brasileira. Trata-se, evidentemente, de um tema muito amplo, que inclui desmatamentos. E, também, a problemática das hidroelétricas, mineração e muitas outras modalidades de destruição. Não pre-tendo e, certamente, não vou conseguir falar sobre todos os tipos de destruição que temos na Amazônia. E, nem tampouco sobre outras questões que o prof. Aziz mencionou ao me apresentar, tais como a capacidade de suporte e outros temas. Quero centrar minhas observações nos problemas de desmatamento da região: os impactos ambientais disso decorrentes; e algumas das causas dos processos que ali atuam. E, ainda sobre que poderia ser feito para atenuar ou estancar os processos predatórios. Abordarei, obrigatoriamente, as sérias ques-tões envolvidas na construção das hidroelétricas. Em qualquer oportunidade, quando eu me refiro a assuntos ligados a desmatamentos, lembro que o grosso da Amazônia ainda tem o aspecto de uma imensa área florestada. Mesmo que a palestra seja sobre desmatamento, é sempre importante manter na mente que ainda existe muita floresta contínua, com mínima participação humana. Alguns diapositivos, que apresento, nos dão uma certa esperança de ter um quadro melhor; de poder conter ou reverter o quadro de destruição que vem ocorrendo, hoje, na Amazônia, mas, também, é importante lembrar que esse raciocínio tem muito de enganador. Ele pode conduzir muitas pessoas desavisadas a pensar que o desmatamento realmente não seja um problema tão grave assim. E, que sendo a Amazônia muito grande, onde ainda existem muitas florestas, seria praticamente impossível cortar toda a floresta. Infelizmente, esse não é o caso. A legislação que controla os desmatamentos é falha, existe muita permissivida-de para a continuação dos processos predatórios, e grandes interesses envolvi-dos na continuação do desmatamento; até que se chegue à última árvore. É a mesma coisa que aconteceu aqui no Brasil Centro-Sul, há 70 ou 80 anos passa-dos. No Paraná, por exemplo-no início do século-o pessoal falava exata-mente a mesma coisa: que a floresta era tão grande, que nunca ia se conseguir desmatar tudo. Entretanto, após algumas décadas, não existiam mais florestas por lá. O paralelismo é perfeito: o mesmo poderá acontecer na Amazônia, e, talvez com mais rapidez, se não forem tomadas medidas efetivas e de aplicação imediata. Quero lhes mostrar alguns dados sobre a marcha do desmatamento (dados já um pouco defasados) mostrando a ampliação das derrubadas, nos úl-timos anos, dentro de cada um dos estados e territórios, na Amazônia. Como se pode deduzir-em Mato Grosso, Rondônia e Acre-estão ocorrendo explosões de desmatamento, de forma exponencial-do tipo da inflação no Brasil-que se desdobra a cada ano. É esse o tipo de tragédia-surpresa que o desmatamento pode nos oferecer. Um tanto igual ao que as pessoas sentem quando vão para o supermercado e verificam o quanto aumentaram os preços, ou a idéia de que, com o quê, há dez anos atrás se adquirira uma casa, hoje se compra uma garrafa de Coca-Cola. Coisas assim: surpresas sucessivas, mesmo convivendo-se com a * Transcrição da Conferência do Mês (IEA/USP): "Destruição da Amazônia", realizada no Conselho Universitário em 24/11/88.
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Fearnside, P. (1989). Processos predatórios na floresta tropical úmida da Amazônia Brasileira. Estudos Avançados, 3(5), 21–35. https://doi.org/10.1590/s0103-40141989000100003
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