A pesquisa qualitativa em psicologia: contradições, alternativas e desafios

  • Goulart D
N/ACitations
Citations of this article
7Readers
Mendeley users who have this article in their library.

Abstract

Refletir sobre pesquisa qualitativa em psicolo-gia não se resume à discussão de um aspecto técnico pontual relativo às formas de se con-duzir uma investigação. Desde seus primórdios nos campos da antropologia e da sociologia, no final do século XIX e no início do século XX, o qualitativo se remete a diferentes possibilida-des de abordar dimensões do objeto pesquisa-do que extrapolam a quantificação enquanto recurso dominante na construção da ciência. Por isso, pensar a pesquisa qualitativa implica, simultaneamente, transitar por um tripé susten-tado (1) por questões relativas a como fazê-la, (2) pelo que ela busca representar e (3) pelos princípios que sustentam essa aproximação. Em outras palavras, trata-se de assumir a unida-de entre metodologia, teoria e epistemologia (González Rey & Mitjáns Martínez, 2017). Uma breve reflexão sobre seu uso no campo da psi-cologia nos permite perceber que, historica-mente, tal tripé não tem sido bem sustentado. Autores como Koch (1999), Danzinger (1990) e Foucault (1975) dedicaram-se a discussões so-bre a constituição da psicologia enquanto ciên-cia e seus desdobramentos em diferentes cam-pos. Algo marcante na análise dos autores é o caráter naturalista que a psicologia assumiu, so-bretudo, na primeira metade do século XX, na busca por sua legitimação enquanto ciência mo-derna. Esse processo conduziu ao distanciamento radical das questões históricas, epistemológicas e culturais relativas a seu saber. A ênfase no con-trole, por meio do uso instrumental da quantifica-ção, a exemplo da proliferação dos testes psico-lógicos, esteve associada à importação acrítica de modelos hegemônicos de outras ciências, sem se atentar para a especificidade do campo, cul-minando em uma orientação ateórica que pas-sou a ser dominante em suas pesquisas (Gonzá-lez Rey, 2002, 2005). A psicologia passou a ser hegemonicamente uma ciência empírica, que se assumiu como positivista, fundamentada, embo-ra amiúde implicitamente, pela epistemologia moderna dominante. Como argumenta Japiassu (1982), no seio de tal epistemologia moderna dominante, sobretudo a partir da segunda metade do século XVIII, houve a substituição da antiga oposição homem/Deus pela simples contraposição sujeito/objeto. Des-sa forma, em meio a elaborações metodológi-cas rigorosas e inflexíveis deixou de haver lugar para o ser humano, bem como para a vida. A ideologia mecanicista passou a se encarregar do minucioso empreendimento de dissociar

Cite

CITATION STYLE

APA

Goulart, D. M. (2018). A pesquisa qualitativa em psicologia: contradições, alternativas e desafios. Revista Psicologia, Diversidade e Saúde, 7(1), 6–9. https://doi.org/10.17267/2317-3394rpds.v7i1.1825

Register to see more suggestions

Mendeley helps you to discover research relevant for your work.

Already have an account?

Save time finding and organizing research with Mendeley

Sign up for free