Abstract
A esses dois textos publicados em 1967 vieram se juntar os artigos " Cam-po do poder, campo intelectual e habitus de classe " e " Gênese e estrutura do campo religioso " , ambos de 1971. O primeiro deles busca articular o empre-go de ambos os conceitos, numa espécie de guia prático para futuras incur-sões de pesquisa a respeito dos intelectuais e suas obras, salientando as rela-ções desses domínios da experiência social ao sistema de poder (renomeado campo do poder) e à estrutura da classe dirigente. Todavia, outra figura decisiva no itinerário intelectual de Bourdieu de-sempenha um papel crucial na demonstração empírica explicitada, de modo sucinto, no miolo do trabalho. Refiro-me à invocação de Gustave Flaubert, que faz as vezes de representante típico-ideal da vertente da " arte pela arte " , como componente estratégico de um retrato histórico compacto sobre a emergência do campo literário francês. Tanto a figura do romancista como a menção crítica à clássica monografia de Sartre (1971) a seu respeito serão objetos das atenções de Bourdieu vinte anos mais tarde. Por enquanto, vale a pena rememorar as balizas e as significações com que Bourdieu deu recheio sociológico à sua compreensão da atividade intelec-tual e artística, a qual, nesse primeiro momento, ainda se encontrava quase por inteira caudatária de sua releitura dos trabalhos de Max Weber, em espe-cial, as sociologias da religião e do direito. Talvez se possa começar pelo início, isto é, a recusa das formulações ideográficas da história literária ou da crítica de arte de perfil convencional – a ideologia romântica do gênio criador, a biografia como resgate de um pro-jeto puramente estético, a vida do autor ou artista como obra de arte – estava na raiz dessa outra apreensão, sociológica, crítica, desveladora, acerca dos con-dicionantes estruturais do trabalho intelectual. Em lugar desse modelo explicativo estetizante, de feitio estilístico, filoló-gico, ou até mesmo imerso numa certa atmosfera histórica rarefeita, como nos melhores exemplos de toda uma corrente marxista de crítica literária (Lukács, Benjamin, Adorno etc.), obcecado pela singularidade extremada de cada obra, Bourdieu pretendia elaborar um modelo de encaixe e interpreta-ção dos fatores sociais retidos como pertinentes para dar conta de um dado estado da cena intelectual. O conceito de campo foi tomando corpo no in-tuito de nomear essa nova amplitude de perspectivas sobre a sucessão de ex-perimentos históricos que estão na origem das feições da cultura erudita na moderna sociedade capitalista. Em vez de mirar as mediações modeladoras da individualidade singular do artista, tal como Sartre procede em relação a Flaubert, Bourdieu dava mostras de estar mais interessado em explorar os fatores incidentes sobre as práticas de todo escritor, que derivavam da operação do sistema mais inclu-6 5 abril 2003 Sergio Miceli sivo de relações e de posições, designado como campo intelectual. Eis aí, numa expressão que logo se converteria na palavra-chave da sociologia dos sistemas simbólicos à la Bourdieu, o enunciado, prenhe de significações, capaz de nomear, na íntegra, o território de condições e práticas inerentes ao obje-to sociológico por excelência de uma nova teoria do social. O campo constituía, então, um ponto de vista do qual se podia captar posições produtoras de visões, obras e tomadas de posição, a que corres-pondiam classes de agentes providos de propriedades distintivas, portado-res de um habitus, também socialmente constituído. O conceito basilar de " uma ciência rigorosa dos fatos intelectuais e artísticos " deveria permitir uma análise tríplice: primeiro, acerca da posição dos intelectuais e artistas na estrutura da classe dirigente; segundo, a respeito da concorrência interna entre as diversas categorias e grupos em torno da legitimidade cultural; terceiro, a construção do habitus como sistema de disposições socialmente constituídas de um grupo de agentes. Tais passos deveriam efetuar-se contanto que respeitassem a exigência de explicitar as margens de autonomia do campo intelectual, devido, bem entendido, às suas relações com o campo do poder. Nessa perspectiva, Bourdieu empenhava-se um bocado em qualificar a situação de dependência material e política dos intelectuais e artistas em relação aos grupos e frações dirigentes, como se o refinamento de apreciação das peculiaridades posicionais pudesse esclarecer tanto sua auto-imagem como as representações e as obras daí advindas. No limite, tudo se passa como se as obras e as tomadas de posição estéticas dos agentes pertencentes a quaisquer vertentes do campo intelectual se situassem num gradiente de dominação-subordinação, contrastando os produtores culturais mais dependentes aos mais autônomos perante os detentores do poder econômico e político. Tudo o mais estaria referido, em última instância, a esse engate. Assim, apenas a título de exemplo encontradiço ao longo do texto, dentre as condições mais espe-cíficas a serem preenchidas pelos escritores da " arte pela arte " , o traço bio-gráfico mais decisivo era o fato de serem " burgueses " , mais " transviados " do que desclassificados (Bourdieu, 1971a, p. 200). Num rechaço explícito da abordagem sartriana, nucleada na tomada de consciência, por parte do sujeito criador, da verdade objetiva de sua condição de classe, Bourdieu refutava o trabalho da consciência e elegia o habitus como princípio unificador e gerador de todas as práticas. O artigo definia o habitus como " o produto da interiorização das estruturas objetivas " , lugar geométri-co de uma determinação, a qual plasma o futuro objetivo e as esperanças subjetivas, amarrando quaisquer práticas no âmbito de uma carreira ajustada às estruturas objetivas.
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Miceli, S. (2003). Bourdieu e a renovação da sociologia contemporânea da cultura. Tempo Social, 15(1). https://doi.org/10.1590/s0103-20702003000100004
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