Abstract
Apesar da importância que o conceito de" carência" desempenha nas explicações dos" movimentos sociais urbanos", sua explicitação não tem merecido a atenção devida na maioria dos estudos sobre esse tema, pelo menos no Brasil. De fato, a gênese desses movimentos já foi explicada como uma forma de reação popular ao surgimento de" novas carências" originadas nas" contradições urbanas", comprometedoras da" reprodução da força de trabalho". Por outro lado, interpretações mais recentes, de cunho antropológico, tomaram as" carências" como fundamentos de processos identitários capazes de definir as coletividades dos participantes desses movimentos. Evidentemente, os dois usos de" carência" não são excludentes pois são postos em análises com diferentes níveis de generalidade: o primeiro em perspectiva macro, outro em perspectiva micro. Mas o que ambas trazem em comum é a naturalidade com que tratam o conceito de" carência", como se não fosse necessário escrutiná-lo por transparente e unívoco. Este artigo pretende sugerir que uma análise do conceito de" carência" pode ajudar a pensar os" movimentos sociais urbanos" simultaneamente ao nível macro e micro social, por associá-lo diretamente a mediações fundamentais da prática social. Uma primeira mediação aparece no fato de que o conceito de" carência" tem por referência o conceito de indivíduo, aquela é sempre atributo deste. A determinação de carências é um processo subjetivo e individual e é realizada mediante escolhas entre carências diversas, e estas implicam reciprocamente opções entre valores e modos de vida, o que é particularmente importante nas sociedades modernas. Por desconhecer a natureza subjetiva e individual das carências, qualquer teoria que tente pensar sistemas" verdadeiros e falsos de carências" embute uma normatividade nada democrática. Daí decorre que a" consciência de nós" como torcedores de time de futebol, membros de partido, de sindicatos... de classe como é constantemente referida ao compartilhar de carências, nunca é um dado nas sociedades cujo pressuposto é a existência de" indivíduos livres". Ela é uma elaboração coletiva capaz de convencer a um número maior ou menor de indivíduos.
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Nunes, E. (1989). Carências urbanas, reivindicações sociais e valores democráticos. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, (17), 67–91. https://doi.org/10.1590/s0102-64451989000200005
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