Fim da doação remunerada de sangue no Brasil faz 25 anos

  • Guerra C
N/ACitations
Citations of this article
21Readers
Mendeley users who have this article in their library.
Get full text

Abstract

Eleito para a Diretoria da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) para o biênio 1979-1981, na primeira reunião foram avaliados os dois maiores proble-mas do setor. Na área da Hematologia, um dos problemas era que, nos países desenvolvidos, as leucemias agudas da in-fância tinham 50% de cura, enquanto no Brasil eram raros os casos de cura. Após algumas reuniões, a Dra. Silvia Regina Brandalise formou o grupo brasileiro de Tratamento de Leucemias Agudas na infância e com suporte da SBHH insti-tuiu o primeiro protocolo nacional que começa a colocar o Brasil com resultados comparáveis aos resultados interna-cionais. O outro problema na área de Hemoterapia estava na falta de doadores, levando os serviços públicos à exigência de doação de sangue para internar os pacientes ou à realiza-ção de coletas de sangue em presídios. Os bancos de sangue privados, por sua vez, recorriam nas capitais e cidades de médio porte à doação remunerada, criando, assim, uma pro-fissão – a do doador gratificado. A comissão indicada pela Diretoria da SBHH e consti-tuída por Pedro Clóvis Junqueira e Jacob Rosemblit, entre outros, apresentou então uma proposta de campanha de Do-ação Voluntária de Sangue com cartazes e folhetos. Uma das causas da baixa doação de sangue estava na "proibição" de solicitação de doações de parentes e amigos dos pacientes da Previdência Social, pois os sindicatos enten-diam, àquela época, que o Governo pagava o sangue e, por isso, não havia a necessidade de reposição dos estoques. A SBHH enviou cartas aos Ministérios da Previdência e da Saúde e pediu apoio à campanha de doação voluntária, não tendo sequer obtido resposta à solicitação. Em dezembro de 1979 compareci a uma entrevista pú-blica com o então ministro Jair Soares e apresentei a campa-nha de doação voluntária da SBHH. O ministro afirmou que deveríamos apresentá-la no Congresso de Doação Voluntá-ria, organizado pela Associação dos Doadores Voluntários de Sangue, no mês de fevereiro do ano seguinte, em Brasília. A SBHH, na ocasião, já havia protestado, junto aos organizadores deste evento, da ausência de hemoterapeutas brasileiros no programa, pois só haviam sido convidados colegas europeus, e o único brasileiro convidado era um es-pecialista em moléstias infecciosas. Juntamente com Leonel Szterling e Nelson Hamerschlak compareci ao encontro e no evento questionei as coloca-ções ofensivas à classe médica hemoterapeuta e ao rótulo indiscriminado de comerciantes de sangue. Apresentei en-tão a nossa campanha, que já começava a ter apoio da soci-edade e da maioria dos hemoterapeutas brasileiros Em março de 1980, a SBHH foi convidada para assistir em Brasília ao lançamento do Pró-Sangue. Neste documento, o governo posicionava-se de forma clara pela doação volun-tária de sangue e estabelecia um projeto de estatização da atividade hemoterápica com a substituição dos serviços pri-vados pelos públicos. Reunidos com os hemoterapeutas em São Paulo foi de-cidido que a doação remunerada deveria ser extinta. Estudando os modelos de hemoterapia existentes ob-servou-se que hospitais privados como o Albert Einstein, Santa Catarina e Sírio Libanês já conseguiam manter o esto-que de sangue com a reposição voluntária, e alguns dos serviços públicos, como o do Hospital do Servidor do Esta-do de São Paulo, capital, também coletavam sangue no local e mantinham o seu suprimento de sangue sem recorrer à do-ação remunerada. A experiência mundial de países que deixaram de remu-nerar doadores mostrou que, para se atingir a doação altruís-ta, era necessário um estágio intermediário com o apelo à doação de reposição entre amigos e familiares dos pacientes que necessitavam de transfusões. Assim definiu-se um modelo em que o hemoterapeuta passava a atuar dentro dos hospitais dando suporte aos co-legas no diagnóstico e na terapêutica das hemorragias e do-enças onco-hematológicas. Como estas situações ocorriam em pacientes internados, passou-se a atuar na obtenção de doadores junto a amigos e parentes dos internados dirigin-do-se a coleta de sangue para dentro dos hospitais. Além disso, era necessário que os hospitais instalassem áreas para a coleta de sangue em suas instalações, permitissem suas campanhas de doação e o corpo clínico colaborasse na ação de convencimento da necessidade de doação de sangue. Na ocasião procurei o Dr. Pedro Kassab, presidente da AMB, que nos orientou em definir um dia a partir do qual não haveria mais doação remunerada. Este dia "D" deveria ser precedido por ações que facilitassem o objetivo final. Assim, realizei os seguintes passos para o encerramen-to da remuneração ao doador de sangue: 1. Consultei o Conselho Regional de Medicina (CRM) sobre responsabilidade no fornecimento de sangue. O órgão definiu que o suprimento do sangue era de responsabilidade da comunidade, dos médicos, dos enfermeiros e também dos hemoterapeutas. Assim, este deixava de ser o único respon-sável pela obtenção do sangue. 2. Solicitei do superintendente do Instituto Nacional de Medicina e Previdência Social (Inamps), Dr. Camanho, para que se pudesse coletar sangue de amigos e parentes dos pacientes da Previdência Social.

Cite

CITATION STYLE

APA

Guerra, C. C. C. (2005). Fim da doação remunerada de sangue no Brasil faz 25 anos. Revista Brasileira de Hematologia e Hemoterapia, 27(1). https://doi.org/10.1590/s1516-84842005000100001

Register to see more suggestions

Mendeley helps you to discover research relevant for your work.

Already have an account?

Save time finding and organizing research with Mendeley

Sign up for free