Abstract
UM OLHAR SOBRE A PANDEMIA DE 1918, 100 ANOS APÓS Neste ano, 2018, completamos 100 anos da maior pandemia de influenza já registrada na história, a famosa Gripe Espanhola de 1918 1. Embora conhecida como "espanhola", não teve sua origem na Espanha. A primeira onda da epidemia na verdade foi detectada em Kansas, nos Estados Unidos. Nessa pandemia, chamada de "mãe de todas as pandemias" 2 , há diferentes estimativas de óbitos pela infecção, que variam entre 20 até 50 milhões de óbitos em todo o mundo. A causa dessa pandemia foi o vírus Influenza A (H1N1). Recentemente, esse vírus foi isolado e sequenciado, fazendo-o reviver 3. Há ainda um grande debate sobre as possíveis causas associadas à magnitude da letalidade desse vírus. As possíveis explicações variam desde uma virulência especial desse H1N1, o que não se observou na cepa circulante na pandemia de 2009, até fatores do sistema imune dos hospedeiros, certamente suscetíveis. A ORIGEM DA DIVERSIDADE Há dois tipos de mudança no material genético do Influenza que são fonte de diversidade do vírus, e que desafiam o sistema imune animal. Eles são apelidados de drift e shift antigênicos 4. Os drift antigênicos são pequenas derivações nos genes do Influenza que produzem vírus que são na prática muito semelhantes aos vírus que os deram origem, o que os coloca em uma posição muito próxima na árvore filogenética. Essas propriedades antigênicas proximamente compartilhadas fazem com que o sistema imune os possa reconhecer e responder a esse desafio antigênico de um modo mais ou menos eficaz. Porém, essas pequenas derivações genéticas podem se acumular ao longo do tempo e resultar em vírus que são antigenicamente diferentes o suficiente para que o sistema imune não mais os reconheça de modo eficaz. Essa diversidade explica por que se pode adquirir repetidos episódios de infecção pelo vírus Influenza e por que a composição da vacina precisa ser atualizada anualmente. Já o shift antigênico traz um desafio bem mais complexo. Representa uma mudança mais expressiva na estrutura do material genético, e ocorre de uma forma abrupta nos vírus Influenza A, dando origem a um novo subtipo do vírus. Essas mudanças maiores resultam em proteínas novas não reconhecidas pelos sistemas imunes dos animais infectados anteriormente por outros tipos de vírus Influenza. São realmente novas proteínas hemaglutininas e neuraminidases na cápsula proteica do vírus, dando origem a novas combinações dessas proteínas (ex.: H3N2; H7N9, H1N1, etc.). Esse shift ocorreu em 1918, resultando na maior pandemia de Influenza conhecida, a Gripe Espanhola, e voltou a ocorrer em 2009, em uma nova pandemia que também rapidamente se disseminou pelos cinco continentes, mas felizmente sem os desfechos trágicos de 100 anos atrás. Enquanto o processo de drift antigênico ocorre comumente nos tipos A e B, o shift antigênico ocorre somente nos vírus tipo A. OS CICLOS PANDÊMICOS Infecções pandêmicas são, de fato, marca registrada do vírus Influenza tipo A, e essas marcas estão registradas ao longo da história humana. Consta que a conquista da Europa por Carlos Magno teria sido retardada por uma epidemia de influenza que se propagou por toda a Europa e dizimou uma parte de seu exército. Um registro digno de confiança, contudo, foi o da pandemia de 1850, que se disseminou por meio de rotas comerciais atingindo a Europa, as Américas e a África. Há dados que mostram que algumas colônias espanholas na América ficaram quase despovoadas 1. Foram feitos registros ainda de pandemias que ocorreram desde o século XVIII, em 1729, 1732, 1781, 1830, 1833 e 1889, até chegarmos à grande pandemia de 1918-1919. Então, parece existir certo padrão temporal, fazendo com que a cada geração (em torno de 80 anos) os ciclos se repitam incluindo um shift desafiador. Os registros da pandemia de 1918 mostram que a epidemia se disseminou em todo o mundo em menos de cinco meses. Alguns aspectos dessa pandemia realmente são impressionantes. Há estimativas de pelo menos 21 milhões de óbitos. Algumas estimativas chegam até a 50 milhões. Um fato que chama atenção é a ocorrência predominante de óbitos entre os adultos jovens e crianças. Houve ainda notícias de pessoas que embarcaram no metrô de Nova York, em Coney Island, apenas com sintomas inespecíficos, como cansaço, e foram encontradas mortas na estação de Columbus Circle, 45 minutos depois 1. Há ainda relatos de que povoados inteiros de esquimós desapareceram completamente em regiões longínquas do Alasca 1. Dados dos patologistas britânicos apontavam a hemorragia pulmonar como a principal causa de óbito, o que não se havia ainda observado nas epidemias ocorridas em 1873 EDITORIAL
Cite
CITATION STYLE
Matos, H. J. de. (2018). A próxima pandemia: estamos preparados? Revista Pan-Amazônica de Saúde, 9(3). https://doi.org/10.5123/s2176-62232018000300001
Register to see more suggestions
Mendeley helps you to discover research relevant for your work.