Abstract
A recente literatura sobre o tema “patrimônios culturais” é notavelmente extensa e não para de expandir-se. Resenhá-la é um enorme desafio para qualquer pes- de as últimas décadas do século passado e sua relevância nas políticas públicas e no cotidiano de diversos segmentos sociais. Um historiador no ano 2115 provavelmente vai se perguntar por que as pessoas, na virada do século XX para o XXI, se mostravam tão sensibilizadas pelas palavras “patrimônio” e “memória” e tão obcecadas pelas ações de proteção e preservação de seus “bens culturais”. Que ameaça assombrava seus corações e mentes? É provável que se pergunte também como essas atitudes preservacionistas podiam conviver com catástrofes naturais e sociais tão devastadoras como as que conhecemos no mundo contemporâneo e que atingem precisamente esses objetos que são alvo de incansáveis esforços de proteção e preservação. Como entender a lógica dessas ações destrutivas sobre as quais, aparentemente, não se conseguia exercer um eficaz controle coletivo? Atualmente, qualquer objeto material, qualquer espaço, qualquer prática social, qualquer tipo de conhecimento pode ser identificado, celebrado ou contestado como “pa- trimônio” por um ou mais grupos sociais. Assim como já se diagnosticou um “abuso da memória” (Todorov, 2004), o mesmo se pode dizer a respeito dessa palavra complementar, o “patrimônio”, e seu caráter inflacionário (Heinich, 2009). De modo voraz a categoria estende-se para diversos domínios, e, para além dos clássicos patrimônios históricos e cul- turais, encontram-se os etnológicos, ecológicos, entre outros. A categoria do “intangível”, por sua vez, tornou possível “patrimonializar” uma vasta gama de itens e até mesmo “pes- soas”, como evidencia o projeto dos “tesouros humanos vivos”, programa patrocinado pela Unesco que visa a proteger e preservar indivíduos que controlam determinados saberes tradicionais que estariam sob o risco de serem esquecidos (http://www.unesco.org/culture/ ich/es/tesoros-humanos-vivos). Quais as razões desse incontrolável processo de expansão dos patrimônios no mundo contemporâneo? E, sobretudo, como entender, ao lado dessa obsessão preservacionista, a fúria destruidora que se abate sobre diversos bens culturais?
Cite
CITATION STYLE
Gonçalves, J. R. S. (2015). O mal-estar no patrimônio: identidade, tempo e destruição. Estudos Históricos (Rio de Janeiro), 28(55), 211–228. https://doi.org/10.1590/s0103-21862015000100012
Register to see more suggestions
Mendeley helps you to discover research relevant for your work.