Abstract
a formação da imagem dos objetos vistos pelo olho humano. Nossa intenção com este artigo é simples: delimitar a situação desse campo de estudos ópticos no período em questão para podermos discutir, num texto futuro, a importância de Kepler para a óptica moderna. O papel e a função do olho humano apresentam, quando analisados da perspec-tiva da história da óptica, uma situação complexa. Um fenômeno óptico contém pelo menos três constituintes: um objeto que é visto, um olho que vê esse objeto, e um meio que está entre eles. Sendo assim, pode-se considerar que um fenômeno óptico é tanto um fenômeno físico, pois há uma relação entre o objeto visto e o olho que o vê com interposição do meio e da luz; quanto fisiológico e anatômico, pois o objeto visto é, de alguma forma, percebido pelo olho de acordo com seus mecanismos internos (anato-mia e fisiologia); e possui também um componente psicológico, pois há uma repre-sentação do objeto visto por quem o observa. Além disso, podemos analisar um fenô-meno óptico de acordo com a geometria, decompondo tal fenômeno em linhas, ângulos e curvas. Grosso modo, como se classifica o fenômeno óptico? Físico, fisiológico, geo-métrico ou psicológico? Ou todos ao mesmo tempo? 2 Esse foi um dos problemas en-frentados pelos primeiros estudiosos; e, dos estudos nesses vários campos, surgiram teorias e argumentos que levaram a um desenvolvimento dessa ciência nos períodos subseqüentes. A óptica do final do século xvi é a conseqüência dos diversos desenvolvimentos pelos quais ela passou desde os gregos até esse período. A óptica da época de Kepler resultou fundamentalmente de dois períodos, de duas grandes épocas de estudos e mudanças: uma se deu na Grécia antiga, quando a óptica se estabeleceu como discipli-na científica, pois as bases, tanto matemáticas, principalmente com Euclides e Ptolo-meu, quanto fisiológicas e anatômicas, expressas admiravelmente por Galeno, foram pela primeira vez na história dessa ciência organizadas em corpos teóricos bem de-finidos; aliado a isso, encontram-se concepções filosóficas que influenciaram tais teorias, provindas basicamente da filosofia dos atomistas, de Platão e de Aristóteles. 2 No prefácio de sua obra Optics: the science of vision, Ronchi alerta para as dificuldades históricas que surgem quan-do procuramos uma correta delimitação dos estudos ópticos. O fato da óptica ser hoje em dia um ramo admitido da física pode enganar-nos obscurecendo as diferentes possibilidades de classificá-la. Além da óptica física, temos a óptica fisiológica, psicológica, geométrica, técnica, óptica de ondas etc. Também são de interesse as diversas aplica-ções que a óptica tem: na física, na oftalmologia, na astronomia, na matemática etc. Assim, Ronchi admite que "quanto mais eu procurava delimitar o significado do termo 'óptica' e definir o seu conteúdo, mais isso me escapava. Sempre foi comum considerar característico da óptica ela ser um ramo da física, aplicada a suas construções puramente matemáticas: a óptica geométrica e a óptica de ondas; e isso mostra que podemos ter perdido a essência da óptica física" (Ronchi, 1959, p. 6).
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Tossato, C. R. (2005). A função do olho humano na óptica do final do século XVI. Scientiae Studia, 3(3), 415–441. https://doi.org/10.1590/s1678-31662005000300004
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