Abstract
Todos nós passámos pela experiência de perder um objecto portador de recordação-pedaço de papel, livro anotado, agenda, relíquia, fetiche, etc. Descobrimos então que uma parte de nós próprios (como que a nossa memória) está fora de nós. Esta memória material, que Hegel considerava objectiva, é parcial. Mas constitui a parte mais preciosa da memória humana: aí se forma o conjunto das obras do espírito, sob os mais variados aspectos. Escrever um manuscrito é organizar o pensamento confiando-o ao exterior sob a forma de marcas, isto é, de símbolos, somente por onde ele se reflecte, se constitui realmente, tornando-se repetível (Jacques Derrida dizia iterável) e transmissível: é aí que o pensamento se torna saber. Esculpir, pintar, desenhar é ir ao encontro da tangibilidade do visível, é ver com as mãos ao mesmo tempo que se dá a ver, isto é, a rever: é formar o olhar daqueles que vêem e, nessa medida, esculpir, pintar e desenhar esse olhar-trans-formá-lo. Tal é também o sentido do que Joseph Beuys chama escultura social. A memória humana é originariamente exteriorizada e isso significa que é, desde logo, técnica. Formou-se antes de mais como utensílio lítico, há já dois milhões de anos. Suporte espontâneo de memória, o utensílio lítico não é feito, no entanto, para guardar a
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Stiegler, B., & Medeiros, M. B. de. (2009). Anamnésia e hipomnésia: Platão, primeiro pensador do proletariado. ARS (São Paulo), 7(13), 22–41. https://doi.org/10.1590/s1678-53202009000100002
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